Cultura
Masp abre ano de exposições dedicado ao feminismo com a ‘cronista do Brasil’
Djanira: a memória de seu povo
06/03/2019 20h11Atualizado há 2 meses
Por: A Estância
Fonte: hypeness
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As temáticas escolhidas pelo Masp para reger as exposições de cada ano não costumam decepcionar. Neste 2019, que já começa cheio de tensões, não será diferente. O Museu de Arte de São Paulo tomou como eixo central das mostras o tema “Histórias das mulheres, histórias feministas“. Ninguém menos que Tarsila do Amaral, Lina Bo Bardi e Anna Bella Geiger, entre outras, ocuparão as paredes em mostras monográficas ao longo do ano.

O museu já tinha flertado com o tema duas vezes nos últimos anos. Em novembro de 2015, o Masp abriu a mostra Histórias Feministas, da artistas Carla Zaccagnini. Com a obra “Elementos de beleza: Um jogo de chá nunca é apenas um jogo de chá”, ela trazia um pouco sobre os ataques das suffraggetes, ativistas que lutaram pelo direito de voto para a mulher na Inglaterra do início do século 20.

“Elementos de beleza: Um jogo de chá nunca é apenas um jogo de chá”

Quem tomou o espaço dentro do mesmo tema foi o coletivo estadounidense Guerrilla Girls, em 2016, no ano de “Histórias das Sexualidades”. A mostra trouxe bastante essa questão sobre a presença das artistas mulheres na história da arte e nas instituições, como museus e galerias, além da a presença de mulheres no acervo e na coleção do próprio museu.

“A nova gestão do Masp tem uma preocupação recorrente em diversificar esse acervo, ter mais artistas mulheres, e não só, também artistas não-brancos, sejam indígenas, negros ou latinos. Existe um interesse e uma vontade de que esse acervo não seja apenas um acervo de arte européia, ou arte feitas por homens brancos”, afirma Isabella Rjeille, curadora da mostra sobre Djanira da Motta e Silva, a primeira do ano com o novo tema no Masp.

A exposição

Djanira da Motta e Silva é quem abre os trabalhos de Histórias Feministas, bem no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. Nas paredes do Masp, “Djanira: a memória de seu povo” é a primeira grande exposição individual em um museu dedicada ao trabalho da artista, 40 anos após sua morte. Mas não estamos falando aqui de uma pintora com reconhecimento tardio e sim e de uma das grandes e reconhecidas pintoras do cenário brasileiro dos anos 1940. Sua exposição monográfica anterior aconteceu em 2000, no Centro Cultural Light, no Rio de Janeiro, cidade onde passou boa parte da vida.

Djanira surge no momento em que o modernismo dos anos 20, da Tarsila, da Anitta, já encontra terreno mais sólido. Nos anos 40, ela chega no cenário das artes plásticas participando dos salões nacionais, até que a crítica de arte daquela época a categoriza como uma artista primitiva, ingênua. “Isso são categorias muito problemáticas e preconceituosas e acabaram isolando o trabalho dela de uma narrativa maior sobre a arte moderna brasileira”, explica a curadora Isabella Rjeille.

Segundo Isabella, isso era algo que a própria Djanira negava. “Ela falava que ela poderia ser indígena, mas o trabalho dela não. Para ela, a pintura era um compromisso social”, conta. Assim, essa é uma exposição busca recolocar o trabalho da Djanira e mostrar a importância fundamental de sua obra, além de vir mais mais alinhada com o discurso que a própria artista tinha sobre seu trabalho, do que o discurso que a história da arte brasileira fez sobre ela. “É uma atitude que se deve ter em relação muitas artistas mulheres que tiveram suas vozes sendo menos importantes diante da voz de alguns críticos”, diz a curadora.

 

A mostra individual traz um recorte amplo da obra. São trabalhos dos anos 40, quando ela começa retratando amigos e a si própria, até os anos 70, quando já tem o cunho social estabelecido. As obras tinham interesse em representar o trabalho e o trabalhador, além das modificações nas paisagens pela crescente industrialização do país. Ela representava também as religiões de matriz africana, a partir dos anos 50, quando ela viaja para Bahia.

“A exposição tenta trazer um pouco essa diversidade de maneiras e imagens que ela criou sobre o país. O Brasil que a Djanira advogava e que ela queria representar era diverso. Era um Brasil onde existiam desde artesãos e costureiras até trabalhadores de fábrica que viviam entre as máquinas. Desde a religião católica, do Barroco mineiro até as religiões de matriz africana, principalmente o Candomblé. Ela se dedicou durante um tempo a retratar os orixás e todas suas simbologias” conta a curadora.

Cronista do Brasil

 

Djanira nasceu em Avaré, no interior de São Paulo, em uma família trabalhadora. Autodidata, ela teve muito reconhecimento profissional em vida, tendo ganhado diversos prêmios, inclusive uma bolsa do Guggenheim, que a levou para Nova York. Segundo Isabella, a artista teve também teve bastante sucesso comercial, sendo representada por várias galerias, e que vendendo muitas obras da Djanira.

 

“Ela ganhou muitos prêmios em salões nacionais, viajou pelo Brasil todo, foi para países da União Soviética. Ela foi uma artista que circulou muito. Nos anos 50, ela fez um sucesso muito grande, então ele estava sempre em jornais, dando entrevistas. Era uma figura pública e muito articulada”, conta Isabella.

Durante essas viagens e exposições, ela conhecia muitos artistas. Quando vai para Bahia e conhece Jorge Amado, Djanira pinta uma das obras de candomblé dedicada ao escritor – vale dar um carinho maior a ele na exposição. Na mostra também estão imagens emblemáticas do mercado de Salvador e seus trabalhadores.

Lá ela também conheceu o médico, escritor, professor, poeta, pesquisador e crítico de arte Clarival do Prado Valladares. Ele acompanhou o trabalho da Djanira e escreveu um texto muito importante no qual a chama de cronista do Brasil. “Eu acho bonito como ele chama ela de cronista. Sintetiza os objetivos dela com o próprio trabalho, que era esse compromisso social, retratar essa realidade que ela via e esses diversos Brasis pelos quais ela percorreu”, comenta Isabella.

O antes e o agora

Nos anos 60, depois depois de 64, por conta da ditadura militar e alguns motivos pessoais, Djanira da Motta acaba se isolando um pouco em seu sítio em Paraty. “Ela fica muito apreensiva com o golpe de 64, então isso a afeta bastante”, diz Isabella. Ela chegou a ser presa em 64 por decorrência de seus trabalhos. “Nós encontramos alguns recortes de jornal que encontraram livros da cortina de ferro no carro dela, ela fala que não, mas a gente sabe que ela teve um envolvimento com partido comunista”, conta Isabella, que assina a curadoria ao lado de Rodrigo Moura.

Djanira começa a circular menos, expor menos e romper com as galerias. Ela sai de Santa Teresa, onde ela morava no Rio de Janeiro, e vai viver no seu sítio em Paraty com marido. “Ela fica muito reclusa, mas não deixa de produzir e continua vendendo quadros de maneira autônoma”, explica.

Em tempos de retrocessos e intolerâncias, o ano dedicado às mulheres vem para enriquecer e nos ajudar a evoluir. Começar com Djanira, em toda sua diversidade, um alento. “O trabalho da Djanira é um trabalho extremamente atual. Ele nos lembra da importância de que não existe apenas um Brasil, existem muitos. Ela nos lembra da importância de um respeito a essa pluralidade a essa diversidade que é a cultura brasileira. Acho que essa é a maior atualidade do trabalho dela nesse momento”, conclui Isabella.

 

Djanira: a memória de seu povo
MASP – 2º subsolo
Março a maio de 2019
Curadoria: Isabella Rjeille, curadora-assistente, MASP, e Rodrigo Moura, curador-adjunto de arte brasileira, MASP

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